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Contos, pontos e histórias

Batom vermelho...

Cátia Madeira, 17.01.21

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Batom vermelho, calças de ganga justas, botas de cano alto pretas em verniz, óculos de massa pretos, camisola de lã com uma gola que lhe emoldura o rosto no frio que se faz sentir no escritório. Há duas semanas que esperam a empresa de manutenção dos ares condicionados, mas as desculpas sucedem-se e o frio mantém-se.

Espreita por cima do ecrã fazendo-se indiferente aos comentários de corredor.

Boneca para todo o serviço. Com aquela boquinha ai Jesus. Diz-se que comeu este e aquele. A gente vê logo pela tranca de onde é que lhe vêm os estudos. Doutora é uma ova, deve ter sido com cada oral.

Não se ouvem naquele momento os comentários. Todos estão sentados na sua secretária, compenetrados, com sorrisos diligentes de quem dá graxa. É na pausa para o café, no cigarro lá fora debaixo de uma varanda, no anda cá nem sabes o que é que a gaja me disse ainda agora, nas contrariedades, nas faltas de tolerância para a mediocridade. Porque é difícil entender que, para uma mulher que usa o encarnado sem medo, é preciso provar mais, saber mais, trabalhar mais, ser intolerante com a sua preguiça e tantas vezes ter de fazer vista grossa à dos outros.

Havia sempre um recém-contratado ou um estagiário que tinha uma amiga que tinha uma prima que tinha uma cunhada que tinha uma tia que tinha sido da mesma turma na Universidade e que contava belas histórias ali da estrela.

 

O pai nunca lhe disse não vistas isto ou não vistas aquilo. Esclarecia-lhe que a confiança que depositava nela era maior que as roupas que vestia, as cores que trazia. Uma mulher não se faz de trapos. Os trapos usa-os ela. Mas ao fim do dia, de regresso da horta comunitária onde gostava de ocupar o tempo livre, quando passava pela tasca da vila para cumprimentar os colegas de trabalho, lá tinha de lhes ouvir as afrontas amigas, as imbecilidades vomitadas de quem termina com um «Ó Américo, sabes que um gajo está a brincar, a tua filha aqui pá gente é uma santa». Se fosse filha de qualquer um deles não saía de casa assim, de batom vermelho, que isso é coisa de mulher da vida, isso e as unhas compridas, igualmente encarnadas, daquelas que faziam mesmo lembrar as gajas de um bar de strip a que o Zé das rodas tinha ido, «o gajo é que conta bem a história, mas uma pessoa fica com a ideia». Mulher decente tem mãos de lavar loiça, de estender a roupa, de tratar da família. Mulher de bem anda na rua com a cara que Deus lhe Deus. Pernas ao leu, lycras justas e bocas vermelhas são boas é nas mulheres dos outros e nas filhas dos desatentos.

Américo não lhes dava nota. Baixava a cabeça. Seguia para casa. Chegava-lhe a tristeza da filha com a mãe num túmulo. A pedra mármore não dá conselhos. As flores que lá põe não trazem aconchego. Sabia lá um pai velho o que era melhor para uma filha.

Manuela perguntava-lhe antes de sair:

- Estou bonita, pai.

- Sempre a mais linda de todas.

Manuela deixava-lhe a marca do batom na bochecha e saía porta fora.

 

Na faculdade conheciam-na pelo batom vermelho. Olhavam-lhe de lado para as curvas. Eles achavam que a comiam. Elas criticavam-lhe a existência, só podia ser burra. Das que copiavam trabalhos, se um dia lhos viesse pedir que tirasse dali o cavalinho da chuva.

Mas Manuela nunca pediu trabalhos nem apontamentos a ninguém. Cedeu os seus aos colegas que lhe diziam que era um máximo e que depois de tiradas as cópias podiam jurar que aquilo não era a letra dela, algum doutor lhas tinha emprestado.

Quando Manuela tirava as notas mais altas só podia ter dormido com alguém. Toda a gente já sabia de cor a fama de alguns daqueles professores, o que eles gostavam de passar alunas, de as levar às orais e de lá saiam elas, burras; elas e as suas curvas; elas e as suas cores; elas e as suas roupas emancipadas; elas e a sua mania de não compreender que ou se é boa e burra ou se é esperta e mal-enjorcada.

 

Casou-se uma vez, juntou-se duas. De todas elas o amor evoluiu para um pedido constante de mudança. Para que se fizesse mulher adulta. Para que agisse, vestisse, gostasse de acordo com a idade. Para que ocultasse o que fazia de Manuela, Manuela. Que ajustasse a semântica e as ideias, que fosse comedida, que apostasse nos tons pastel, que trocasse o vermelho dos lábios pelo rosa clarinho, muito mais parecido com o das mãezinhas deles.

 

Trabalhou afincadamente em todas as empresas de que fez parte, mas a qualidade andava-lhe sempre agarrada às ancas vestidas pelas calças justas, as saias travadas. Porque os olhos comem antes de tudo o resto era bom se a doutora Manuela optasse por uma paleta mais neutra quando escolhe as suas cores.

Entregou a demissão no mesmo dia.

Abriu negócio próprio cuja matéria pouco importa para a história que se quer contar.

Teve empregados e empregadas, procurou rodear-se de gente livre de mente, gente sem preconceitos. Gente que aceita lábios encarnados mesmo que não os queira usar, porque não é a cor de uma boca que muda a pessoa que o enverga.

Ainda assim quando as coisas davam para o torto, quando tinha de ser a chefe em vez da empresária porreira, nesta esquina e naquela, não se sabia a critica fundamentada, era a burra que subiu na horizontal, a bonequinha de adorno, a testa de ferro de algum gajo que levava aquilo para a frente e não queria aparecer.

Como se uma mulher, por ser mulher, por usar vermelho ou qualquer outra cor que lhe apeteça, precise de um macho que a leve a galope.

Manuela seguia o eu caminho. Olhava para a filha e ensinava-lhe que as cores têm o poder que nós lhes damos, e se gostamos de vermelho devemos trazê-lo no peito, nos lábios e onde mais nos aprouver. Sussurrava-lhe que todos os dias dava um pequeno passo para que o mundo dela, ainda pequena, deitada na cama a sonhar com unicórnios, fosse menos tingido pela ignorância daquele que carregou Manuela com o permanente fardo de ser uma mulher duvidosa porque levava consigo a cor que mais gostava.

 

 

Nota de rodapé:  as cores dos homens e das mulheres não se refletem nos lábios que se pintam, nas joias que se usam, nos cabelos, nas saias o no padrão dos casacos. As cores dos homens e das mulheres transparecem pelos seus atos e ainda há muitos que, lamentavelmente, envergam única e somente um negro sepulcral.

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